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Cultura

Entre o silêncio e a tensão: o duelo cinematográfico no Oscar 2026

Diretores locais fazem uma análise sobre os filmes O agente secreto e Valor Sentimental como melhor filme estrangeiro

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Por Carlos Silveira
Foto Arquivo BD

 A disputa pelo Oscar 2026 de Melhor Filme Internacional colocou frente a frente dois estilos distintos de fazer cinema: de um lado, o brasileiro O Agente Secreto, dirigido por Kleber Mendonça Filho; de outro, o norueguês Valor Sentimental, que acabou levando a estatueta. Mais do que uma disputa por prêmios, o embate revelou diferentes formas de narrar, sentir e construir o cinema contemporâneo.

 “O Agente Secreto” representa um cinema de tensão, densidade e posicionamento político. Com uma narrativa que mergulha em estruturas de poder, vigilância e conflitos internos, o longa brasileiro se sustenta em uma construção gradual de suspense. A direção de Mendonça Filho aposta em enquadramentos calculados, ritmo controlado e uma atmosfera que provoca inquietação constante.

 A atuação de Wagner Moura é um dos pilares do filme. Seu personagem carrega ambiguidades e silêncios que dialogam diretamente com o espectador, em um jogo psicológico que exige atenção e interpretação. Trata-se de um cinema que desafia, provoca e, muitas vezes, desconforta características que o aproximam de uma linguagem mais autoral e politizada.

 Já “Valor Sentimental” segue um caminho oposto. O longa norueguês aposta no minimalismo emocional e na introspecção. A narrativa é conduzida por silêncios, olhares e pequenos gestos, explorando o universo das relações humanas com delicadeza. Aqui, não há urgência narrativa, mas sim um convite à contemplação.

 A estética escandinava se faz presente na fotografia fria e na economia de diálogos. O filme constrói sua força justamente naquilo que não é dito, permitindo que o espectador preencha lacunas com suas próprias experiências. É um cinema que não grita, sussurra.

A escolha da Academia por “Valor Sentimental” pode ser interpretada como uma valorização de narrativas mais universais e sensoriais, capazes de atravessar barreiras culturais com maior facilidade. Ainda assim, “O Agente Secreto” deixa sua marca ao reafirmar a força do cinema brasileiro em abordar temas complexos com identidade própria.

Cassiano Zanella, diretor de cinema

“O Agente Secreto finaliza sua temporada de premiações maior do que entrou, colecionando mais de 70 prêmios, e sendo o filme da temporada com maior aprovação da crítica. Suas 4 indicações nas categorias principais do Oscar comprovam isso. Embora, nos bastidores, as engrenagens enferrujadas da Academia foram mais fortes do que a qualidade do filme de Kleber Mendonça Filho”.

“Era improvável que na primeira edição da categoria Melhor Seleção de Elenco, o prêmio fosse para um profissional de fora da indústria e dos sindicatos de Hollywood. E em filme internacional, nossa melhor chance, um drama familiar europeu com atores conhecidos do grande público e que comenta sobre a profissão do ator, foi a escolha que jogou no seguro e que acabou levando o prêmio. Em ator, a categoria mais aberta da noite, em que o favorito mudava de semana a semana, o que pesou contra Wagner foi que sua atuação era em outra língua, e isso ainda é um tabu para os votantes”

“O legado do Brasil nesses dois anos no Oscar não pode ser apenas um fenômeno efêmero e raro: tem que se converter em política pública, investimento em novos realizadores e projetos, e estratégias de distribuição e internacionalização dos nossos filmes”.

Rafa Hoss, produtor cultural

 “O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, entrou na cerimônia com quatro indicações: Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator para Wagner Moura, e Melhor Direção de Elenco, categoria estreante nessa edição. Quatro indicações. Incluindo Melhor Filme, a principal, aquela que todo mundo assiste, aquela que encerra a noite. Wagner Moura se tornou o primeiro brasileiro indicado na categoria principal masculina de atuação na história do Oscar.

 Antes de chegar lá, o filme já havia acumulado prêmios ao longo de toda a temporada, não foi um filme que “apareceu” no Oscar por acidente ou por cota de representatividade. Ele chegou porque passou a temporada inteira sendo reconhecido. E mesmo assim, não levou estatueta nenhuma. Não precisamos fingir, doeu.

 Em Melhor Filme Internacional, a disputa com Valor Sentimental, drama norueguês de Joachim Trier, estava equilibrada até o fim. A Academia foi pelo europeu, escolha dentro do perfil histórico dos votantes. Em Melhor Ator, Michael B. Jordan levou com sua atuação dupla em Pecadores, impulsionado por um SAG Awards que já sinalizava o resultado. Em Direção de Elenco, categoria em que O Agente Secreto merecia muito vencer (e pra mim, a única que tinha esperanças), pelo trabalho coletivo e pela coerência estética impressionante de cada ator dentro do Recife de 1977.

 Claro que após a premiação, apareceram os “patriotas de protesto” comemorando a derrota. Bom, O Agente Secreto chegou ao Oscar com quatro indicações incluindo Melhor Filme, acumulou prêmios em Cannes, no Globo de Ouro e em associações de crítica do mundo todo. Não consigo entender onde exatamente perdemos alguma coisa. E muito menos onde tudo isso cabe dentro de uma comemoração.

Maria Modler, diretora de cinema

         “O agente secreto, como Ainda estou aqui são filmes que falam da ditadura, são muito bons porque falam desta temática de uma forma não óbvia, não do ponto de vista da violência, mas de uma história que foi afetada pela ditadura. O filme é brilhante, que trata de um tema muito polêmico e importante na nossa sociedade de uma forma sutil, dando um outro aspecto da sociedade daquela época.

         Comparando com o filme com drama familiar que ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro, acredito que merecia ter ganhado, até pela estética, pois a do Kleber é fora do tradicional com momentos tresch, planta a estranheza propositalmente. Tudo isso é inovador e foge do contexto convencional. Merecíamos este prêmio, mas também entendo o porquê não vencemos, pois acredito que é algo bastante fora do que a Academia está acostumada a votar.

  O Valor sentimental está mais inserido naquilo que eles já conhecem. Nosso filme fala sobre uma lenda urbana do Recife, que é a perna cabeluda, tem que estar muito dentro da cultura para poder entender, mas temos que valorizar a nossa chegada até lá, com um filme que é muito representativo do cinema brasileiro e que não está no padrão americano, ou seja, não é o que se costuma a ver. Ganhamos Cannes e o cinema nacional se consolida, pois foi uma grande conquista estarmos lá disputando quatro categorias”.

 

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