Em meio às enchentes que marcaram a maior tragédia climática da história do Rio Grande do Sul, em maio de 2024, moradores de Ponte Preta, região do Alto Uruguai, transformaram a mobilização solidária em uma iniciativa permanente de apoio à comunidade. O trabalho voluntário realizado durante a crise deu origem à Associação dos Bombeiros Voluntários de Ponte Preta (ABVPP).
As cheias no Rio Grande do Sul
De acordo com o estudo As Enchentes no Rio Grande do Sul - Lições, Desafios e Caminhos para um Futuro Resiliente da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), o Rio Grande do Sul sofreu um dos eventos hidrológicos extremos mais devastadores já registrados no Brasil.
As informações dos boletins de impacto das chuvas, emitidos pela Secretaria de Comunicação do Estado, apontam que dos 497 municípios gaúchos, 478 foram afetados, com quase 2 milhões e 400 mil pessoas impactadas. A partir de decreto do Governo do Rio Grande do Sul, 95 municípios, dentre eles, Ponte Preta, estiveram em estado de calamidade pública e mais de 300 em emergência.
Solidariedade e cooperação com a comunidade
Durante a enchente histórica, cerca de 70% da área urbana de Ponte Preta foi alagada pelo rio Jupirangava, segundo dados da Prefeitura Municipal. Nesse cenário, um grupo de voluntários atuou em parceria com a Defesa Civil, auxiliando no atendimento e resgate de pessoas em situação de vulnerabilidade no município e em Barra do Rio Azul.
A partir dessa mobilização, os participantes iniciaram um processo de organização que resultou na fundação oficial da Associação dos Bombeiros Voluntários de Ponte Preta (ABVPP), em setembro de 2024. Atualmente, a entidade reúne 16 integrantes e trabalha para ampliar sua capacidade de atuação, prestando serviços de prevenção e combate a incêndios, resgate, atendimento pré-hospitalar e outras ações de emergência.
O grupo busca capacitação constante e participa de treinamentos periódicos em diferentes áreas relacionadas ao atendimento de emergências, resgate e prevenção. Para isso, conta com o apoio de entidades parceiras, como a Força Voluntária do Alto Uruguai e os Bombeiros Voluntários de Concórdia.
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta Ponte Preta como um município de pequeno porte, com população estimada em 1.602 habitantes em 2025, e integra a 11ª Coordenadoria Regional de Saúde (11ª CRS).
Dados do Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES) e do Plano Municipal de Saúde de Ponte Preta (2022–2025) mostram que o município conta com duas Unidades Básicas de Saúde (UBSs), que realizam atendimentos em horário regular, sem funcionamento 24 horas. Além disso, não possui hospital próprio, mantendo convênios, por meio da Secretaria Municipal de Saúde, com os municípios de Getúlio Vargas, Erechim e Passo Fundo para atendimentos especializados e internações.
Segundo o presidente da entidade, Maico Greselle, a organização começou a ser estruturada a partir da percepção de que o município precisava de uma resposta mais rápida em situações de emergência. “Como o município é pequeno, muitas vezes a população pode não perceber a necessidade de um grupo como esse, mas quando ocorrem situações mais graves, transparece a importância de ter uma equipe preparada para atender essas situações”, afirmou.
Apoio para ampliar a atuação
A ABVPP encontrou apoio no Fundo Social do Sicredi, por meio da agência de Ponte Preta, que destinou R$ 20 mil à entidade para aquisição de uniformes, fardamentos e equipamentos essenciais para o início das atividades da associação.
O recurso integra o Fundo Social da cooperativa, abastecido anualmente com 2,4% do resultado do exercício anterior e destinado ao apoio de projetos sociais de interesse coletivo com o objetivo de contribuir para o desenvolvimento local. Desde 2018, quando o programa foi criado, a Sicredi UniEstados já destinou mais de R$14 milhões para iniciativas de interesse coletivo nos municípios de sua região de atuação.
A gerente da agência Sicredi em Ponte Preta, Fernanda Vargas Loss, explica que o contato partiu da cooperativa ao identificar a importância do trabalho desenvolvido pelo grupo. “Eles tinham a força de vontade e o voluntariado. Nós sabíamos desse movimento que estavam fazendo e os chamamos para conversar. O projeto foi aprovado no valor integral”, afirmou.
Para os bombeiros voluntários Adilson Zanchet e Ivan Luis Zappani, a chegada dos equipamentos marcou uma nova etapa da atuação da corporação. O primeiro atendimento realizado foi o apoio no combate a um incêndio em um aviário na comunidade de Povoado Valentim Berta, interior de Ponte Preta.
Cooperativismo e desenvolvimento local
Para a Sicredi UniEstados, o apoio aos Bombeiros Voluntários de Ponte Preta está alinhado aos princípios do cooperativismo. Conforme a assessora de Desenvolvimento Cooperativista, Patrícia Scatolin, a conexão acontece em duas frentes.
A primeira está relacionada ao Fundo Social, mecanismo utilizado pela cooperativa para apoiar iniciativas de interesse coletivo que geram impacto positivo nas comunidades, alinhado ao princípio do interesse pela comunidade.
A segunda conexão está na própria atuação da associação. Formado por voluntários e sem fins lucrativos, o grupo reúne pessoas em torno de um objetivo comum: atender necessidades locais e prestar auxílio à população em situações de emergência.
“Quando identificamos projetos com esse perfil e percebemos seu potencial de transformação, entendemos que apoiá-los é uma forma concreta de colocar o cooperativismo em prática e contribuir para o desenvolvimento local”, afirma Patrícia.
De acordo com dados do Sicredi, a instituição conta atualmente com mais de 3 mil pontos de atendimento distribuídos em 2,2 mil municípios, sendo a única instituição financeira presente em mais de 200 deles. “Isso acontece, pois o objetivo não é apenas obter resultados financeiros, mas promover o desenvolvimento local”, disse Patrícia.
Patrícia Scatolin explica que o modelo cooperativista busca manter os recursos circulando nas próprias comunidades. Os valores movimentados pelos associados são reinvestidos na região por meio de financiamentos destinados a produtores, empreendedores e famílias, contribuindo para a geração de renda e o fortalecimento da economia local.
O processo cria um “ciclo virtuoso”, no qual os resultados retornam aos associados e também financiam iniciativas de interesse coletivo, como o Fundo Social, que apoia projetos comunitários nos municípios onde a cooperativa está presente.