Adentrou a porta da prefeitura uma figura folclórica, um cidadão comum, mas conhecido por todos na cidade. Iniciava o século XXI e, naquele exato momento, assumia um novo prefeito, jovem, em sua primeira experiência política, que havia angariado a simpatia de toda a comunidade e que era chamado por todos simplesmente pelo seu apelido.
Naquele primeiro dia de mandato, a icônica figura aproximou-se da recepção e pediu para falar com o prefeito. A recepcionista informou que o gestor recém-empossado cumpria uma agenda cheia de compromissos iniciais e solicitou que um servidor de extrema confiança o atendesse. Recebido no gabinete, ouviu a pergunta direta:
— O que é que o senhor precisa?
Simplório, mas com excelente poder de comunicação, o homem foi direto ao ponto:
— Eu queria falar com o prefeito... Eu preciso de um rancho.
O servidor, buscando situá-lo na realidade da transição, explicou:
— Olha, estamos iniciando o governo. O prefeito pretende criar um programa de alimentação e, nos próximos dias, poderemos avaliar a sua necessidade.
— Não, não... O rancho que eu falo é um rancho para eu morar. Uma casa! corrigiu o cidadão.
— Bom, para isso precisaremos criar um programa habitacional. Não é assim tão simples. Vamos abrir as inscrições e o senhor poderá se cadastrar.
— Então o senhor não tem como me dar essa casinha que tanto preciso? Pode me dar um rancho de comida, alimentação?
-Mas barbaridade, respondeu o servidor. Estamos iniciando, organizando o regramento. Passe aqui daqui a quinze dias.
— Não vou sair daqui sem nada. Eu preciso de alguma coisa.
— Olha, a única coisa que a gente garante ter aqui agora, infelizmente, é remédio.
Sem perder o ritmo, o cidadão arrematou:
— E qual é o remédio que tem aí que possa me interessar?
Este episódio pitoresco sintetiza o abismo entre o tempo do Estado e a urgência de quem precisa. Para a burocracia, o tempo é feito de regramentos, cadastros e prazos de quinze dias. Para o cidadão vulnerável, a fome e a falta de teto não esperam a posse esquentar.
Mais do que o item material, havia ali a busca pelo "direito simbólico". Na cultura política brasileira, sair do prédio público de mãos vazias soa como descaso. Sair com qualquer coisa. mesmo um remédio aleatório é o troféu de quem foi cobrar e foi atendido. Revela-se também a plasticidade da necessidade: se não há casa, serve comida; se não há comida, serve remédio. O importante é a dignidade do acolhimento imediato, pois, para quem quase nada tem, muito pouco já atende o desejo de não sair de mãos vazias.