De 1937 a 1977, Atlântico e Ypiranga protagonizaram uma rivalidade futebolística que dividiu Erechim em um clássico que receberia a nomenclatura de ‘‘Atlanga’’. O dia 25 de novembro deste ano marcará os 50 anos da última ocasião em que ambas as equipes se enfrentaram profissionalmente. Em vista deste evento histórico, vale relembrar algumas memórias e relatos de um embate que movimentou o futebol erechinense por quatro décadas.
A origem dos clubes
O atual Ypiranga, fundado em 18 de agosto de 1924, surgiu com o propósito primário de ser um clube de futebol, ademais de seus patronos nutrirem uma velada ‘‘antipatia’’ pelo Sport Club Ítalo-Brasileiro, que, naquela década, era um dos poucos times a praticar o esporte na então ''Boa Vista do Erechim''. Com o fim do ‘‘Ítalo-Brasileiro’’, em 1929, se estabeleceu um ‘‘vazio’’ na representação futebolística variada no município, fator tal que foi notado pela juventude citadina e que estimulou a formação do ‘‘Atlântico Foot Ball Club’’ (AFBC), oito anos depois. Em 1940, o AFBC fundiu-se com a ‘‘Sociedade Recreativa Atlântico’’, dando luz ao conhecido ‘‘Clube Esportivo e Recreativo Atlântico’’. Era uma lacuna ocupada e o início de uma rivalidade.
A rivalidade
Ao longo de 40 anos de enfrentamentos entre os clubes e 173 Atlangas profissionais disputados, estabeleceu-se uma forte rivalidade clubística na cidade que não deixava de ser acompanhada pelo engajamento das torcidas. O episódio do ‘‘Atlanga 119’’, ocorrido em 28 de dezembro de 1960, é um exemplo extremo disso, ocasião em que a partida, que decidiria o campeonato municipal de Erechim, precisou ser transferida para Passo Fundo após uma suposta invasão de torcedores do Ypiranga ao estádio ‘‘Waterloo’’. Não por acaso, Luiz Carlos, goleiro do Atlântico por apenas uma temporada, a de 1976, sustenta que a sensação era de um ‘‘Grenal longe de Porto Alegre’’. Por sua vez, Mujica, zagueiro do Ypiranga de 1968 a 1977, segue pensamento semelhante, já que, naquela época, os erechinenses tinham um dos dois clubes como seu ‘‘primeiro time’’, independente da popularidade de Grêmio e Internacional. Portanto, para ele, era um padrão que os Atlangas tivessem grandes públicos, sem deixar de ressaltar a existência de mobilização de arquibancada ypiranguista: ‘‘No tempo em que o Santa Maria tinha a bandinha dele, você ia lá e escutava música. O Santa Maria era organizado, ele tinha a banda dele em tudo que era jogo’’.
Apesar da rivalidade notável entre torcedores, as diretorias dos clubes, em 1972, chegaram a se aproximar de uma fusão por conta da custosa participação no Campeonato Gaúcho de 1971. Entretanto, foi justamente a disputa daquele torneio que oficializaria o primeiro Atlanga realizado na primeira divisão gaúcha, que foi vencido pelo Ypiranga por 2x0. Não seria a última ocasião em que as equipes se enfrentariam naquela categoria: em 1975, edição em que o ‘‘Canarinho’’ obteve uma campanha destacável e alcançou o que seria uma ‘‘segunda fase’’, os clubes se enfrentaram duas vezes, registrando-se um empate em 0x0 e uma vitória verde-amarela por 2x0. No ano seguinte, as equipes novamente se cruzaram, em uma partida que acabou empatada em 0x0. Desta vez, porém, foi o Atlântico que realizou notável campanha, ficando ‘‘no limite’’ para qualificar-se para os quadrangulares finais que decidiriam o ‘’Gauchão’’ de 1976 – algo que seria equivalente a um quinto lugar na classificação final do certame. Para Luiz Carlos, isso se deveu a um desempenho defensivo especialmente bom, somado ao fato de que ‘‘foi montado um time muito competitivo’’.
O último Atlanga
No dia 25 de novembro de 1976, Atlântico e Ypiranga adentraram o campo do Colosso da Lagoa para disputar um amistoso que seria eternizado como o último Atlanga profissional da história. A edição do jornal ‘‘A Voz da Serra’’, publicada naquela quinta-feira, informava que o jogo prometia ‘’boa movimentação’’ de torcedores e mesmo que até hoje o público e a bilheteria do evento permaneçam um mistério, tudo indica que a ‘‘promessa’’ do ‘‘Voz’’ foi fundamentada. Segundo Mujica, que não jogou aquela partida mas estava no Colosso, a quantidade de presentes foi considerável para um estádio de tamanha envergadura: ‘‘para encher o campo lá é difícil, são 20 mil pessoas. Mas mais de 5 mil tinha’’. Por sua vez, Luiz Carlos, que estava entre os titulares verde-rubros escalados, corrobora que a mobilização e o público teriam sido de fato grandes.
Mesmo que ambos não recordem detalhes dos lances da partida vencida pelo Atlântico por 3x1, José Adelar Ody conseguiu desvelar uma síntese do confronto em seu livro ‘‘Atlanga: 40 anos de emoções’’: ‘‘embora dominasse a meia-cancha, o Ypiranga tinha um ataque sem forças. Jogando em contragolpes, o Atlântico apostava na velocidade dos seus atacantes. A primeira fase acabou empatada em 1 gol. O Atlântico manteve sua tática e, em duas escapadas, confirmou a vitória’’.
O resultado vitorioso, nas palavras de Luiz Carlos, estava relacionado a uma ‘‘força moral’’ de que, jogo oficial ou não, ‘‘se tinha um nome a zelar e uma responsabilidade perante ao torcedor do clube’’. Tais palavras dialogam com a análise feita por Mujica, enquanto jogador ypiranguista, de que todo o clássico perdido era uma ‘‘grande frustração’’ e que, consequentemente, vencer era uma satisfação.
O ‘‘fim’’ da rivalidade
O fato de o Atlântico ter fechado seu departamento de futebol no ano seguinte foi uma surpresa aos jogadores do clube, relatou Luiz Carlos. Hoje morador de Itajaí, o goleiro que depois fez carreira em Santa Catarina, lamenta o fim do clássico, apesar de ser grato à instituição que lhe abriu as portas para principiar sua trajetória profissional. Por sua vez, Mujica acredita que dito episódio simbolizou o fim da continuidade do crescimento do futebol em Erechim, já que a vontade que existia de um querer ser melhor que o outro era fundamental como fator motivacional.