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Opinião

Pós-Pandemia em Oito Capítulos: Live do Sapateiro de Bruxelas

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Alcides Mandelli Stumpf
Por Alcides Mandelli Stumpf
Foto Rodrigo Finardi

Capítulo I: O Convite

Questionado por amigos de cafezinho, o Sapateiro de Bruxelas resolve definitivamente se manifestar em sua última e prolongada live, sobre o que espera do futuro nos tempos pós pandemia.

Para elaborar resposta sedimentada e convincente, o mestre recorre – ainda que superficialmente – aos seus conhecimentos e sapiência tão peculiares e de todos conhecida.

Capítulo II: As Grandes Revoluções

Faz questão de citar logo de início o pensador israelense Yuval Harari, com quem concorda, e que divide a história da nossa raça, didaticamente, em quatro etapas ou Revoluções. A saber: Revolução Cognitiva, Revolução Agrícola, Revolução Industrial e Revolução Digital.

Inicia falando sobre a Revolução Cognitiva, que aconteceu há 70 mil anos. Começou quando as pessoas desenvolveram a capacidade de dialogar e expandir o pensamento para além dos objetos ou da natureza corporal – assegura o mestre.

A comunicação entre humanos passou a ter a função primordial nas ações de troca, compartilhamento, cooperação e negociação. A par dessa faculdade, nossos ancestrais aprimoraram a competência de transmitir informações de um para o outro sobre algo que não existia tão somente no mundo físico. Iniciaram, então, as narrativas, lendas, mitos e as primeiras e deliciosas fofocas.

Acentua o belga, que por especial ampliação desta terceira característica, alcançamos o elevado status intelectual atual. A habilidade de criar ficções, inventar coisas, aumentar ou diminuir a dimensão dos fatos ao bel prazer; o dom de iludir, a mentira deslavada além da saudável arte de falar mal dos outros; permitiram que a intrometida espécie estabelecesse uma ordem social. Nos organizamos em grupos ou subgrupos característicos, como tribos, raças, nações, países e torcidas organizadas que hoje – apesar da sanha animalesca de alguns mais exaltados – fazem parte do nosso normal.

Depois, há uns doze mil anos, chegou a Revolução Agrícola, eliminando os salutares hábitos da vida nômade, caçadora e coletora por excelência. As cidades com seus problemas foram instaladas nas cercanias das plantações e dos rios. Foi quando a humanidade, em bom número, passou a ser gorducha e pachorrenta.

Capítulo III: As Invenções

 Ao que tudo indica - segundo o calçadista-, muitas invenções foram originárias dessa época, especialmente da Mesopotâmia, atual Iraque, entre os rios Tigre e Eufrates.  Definitivamente a agricultura, a irrigação, o arado, além da já citada civilização urbana, mudaram o mundo. Importante ressaltar que a escrita sistematizada aparece por volta de 3500 a.C., quando os sumérios criaram a escrita cuneiforme na mesma Mesopotâmia.

Também, em período concorrente, houve civilização do Egito Antigo, que igualmente colaborou com grandes avanços e criações como o calendário, o relógio solar, a organização governamental e as narrativas em hieróglifos que culminaram – quem diria - em verdadeiras bibliotecas.

Na sequência o belga discorre sobre a sua amada Grécia Antiga, suas belezas e seus esplendores que ainda refulgem hoje nas suas palestras.  Os gregos antigos firmaram as bases das primeiras práticas médicas hipocráticas, da geometria e o conceito de democracia. Principalmente, fundaram a filosofia como a conhecemos, aliada à sua magnífica mitologia.

O Sapateiro reforça que os gregos conceberam a filosofia como uma maneira de compreender a realidade ao seu redor, sem recorrer à religião, mitos ou magia. Na verdade, os primeiros filósofos helênicos também foram cientistas que observaram e estudaram a terra, os mares, as montanhas, o sistema solar, o movimento planetário e os fenômenos astrais. O mundo pensante que conhecemos hoje, começa naquele momento da história – ao entender do belga.

Capítulo IV: A Revolução Científica

A Revolução Científica datada de apenas 500 anos atrás, sem dúvida, foi o ponto de virada tecnológica que inaugurou os novos tempos. O movimento resultou da consciência plena da ignorância aliado ao desejo indômito de novas descobertas.

O astuto velho ainda afirma que a Revolução Científica foi impulsionada por governantes que, espertamente, já àquela altura do campeonato, enxergavam no conhecimento uma importante oportunidade de expandir os seus poderes. Daí a estimular, financiar e investir nas inovações, foi um pulo.

A par de toda essa evolução e de olho no futuro pós-pandemia, o sábio bruxelense, faz a uma curva brusca na sua argumentação. É de seu estilo.

Capítulo V: Digressões Filosóficas

Assim do nada, traz à baila o conceito de livre-arbítrio, que, segundo suas ponderações, é o poder que as pessoas têm de agirem de determinada forma, em determinada circunstância ou mesmo deixar de agir, sem nenhuma razão para tal escolha que não a própria vontade. Para reforçar o poderoso argumento evoca santo Tomás de Aquino, para quem o livre-arbítrio embora pareça designar um ato, é na verdade uma potência ou faculdade, por meio da qual os semelhantes podem julgar uns aos outros de forma independente e livre.

O bruxelense entende ainda necessário, para sustentar sua conclusão sobre os tempos pós-pandemia que virá ao final de sua prédica, trazer à lembrança os filósofos Thomas Hobbes (1588-1679), inglês, e Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), franco-suíço. O primeiro defende que em “estado de natureza” —isto é, na primitiva pré-história—, o homem vivia em guerra constante, só refreada pela criação de instituições repressoras e organizadas como o Estado. O segundo, diferentemente, já acha que o homem é naturalmente bom, uma espécie de “bom selvagem”, mas que foi corrompido pelas instituições. Visões diametralmente opostas - comenta o belga.

Enquanto Hobbes apresenta o medo da própria natureza associado a uma visão negativa da liberdade, para Rousseau somente a natureza plena permite a  real expressão da liberdade benigna do homem.

O Sapateiro, sempre atualizado, afirma que recentes estudos compararam o número de mortes com indicadores de falta de recursos ou alimentos em meios de maior ou menor organização política. Os resultados mostraram que as mortes por homicídios, os assassinatos, ocorreram em maior escala em momentos de escassez, e não por causa da organização política. Tais resultados tendem vivamente a apoiar Hobbes – diz o artesão.

Capítulo VI: A Revolução Digital

Nesse ponto da live o astuto belga faz outra curva enviesada e retorna às grandes Revoluções. Fala da Revolução Digital e seus respectivos desdobramentos.

A Revolução Digital, também conhecida como a Terceira Revolução Industrial, refere-se a processos associados à inovação tecnológica. Iniciou entre o final dos anos 1950 e o final dos anos 1970, com a progressão e expansão do uso de computadores digitais, além dos sistemas de automação industrial. O termo também se refere às mudanças radicais trazidas pela tecnologia digital e sistemas de telecomunicações, a partir da segunda metade do século XX – explica o mestre bruxelense.

Internet, penetrou na sociedade, com a mesma força que a energia elétrica no breu do passado. O computador trouxe um novo aumento no uso da escrita, que estava apagada com o avanço das mídias audiovisuais, principalmente a televisão.

Essa popularização digital modificou completamente os hábitos cotidianos. Um novo mundo cheio de vantagens e facilidades foi finalmente descoberto: as distâncias geográficas encolheram e as pessoas se aproximaram com o uso da internet.

globalização propiciada pela troca digital é incomensuravelmente maior  que a alcançada pelas  grandes navegações, que ampliaram o mercado mundial no início da Revolução Científica. Também na medicina, na educação, nas artes e na economia, a Internet propiciou avanços fantásticos. Claramente revolucionou os hábitos e costumes: diminuiu a privacidade, diluiu fofocas e tornou quase impossível separar a vida pessoal da profissional.

Capítulo VII: As Pandemias

Finalmente o calçadista chega de vez às Pandemias. Afirma que desde os tempos mais remotos elas têm existido por todo o planeta, provocando números elevadíssimos de vítimas, com consequências nefastas sociais, econômicas e políticas.

Na Antiguidade, a maior pandemia registrada ocorreu entre 430 a 427 a.C. durante a Guerra do Peloponeso. Apelidada de Praga de Atenas ou Peste do Egito. Já em 165 a.C. surgiu a Peste Antonina também conhecida como a Peste de Galeno. Prolongou-se até ao ano 180 a.C.

No decorrer dos séculos ocorreram muitas outras pragas, mas a Peste Negra, considerada a maior pandemia da história da civilização, merece destaque. Teve início em 1347, na Ásia Central, assolou a Europa e foi responsável por dizimar a metade da população. A epidemia global de peste bubônica foi verdadeiramente devastadora – conclui o artífice.

Mais recentemente, em 1918, surgiu a Gripe Espanhola, considerada a maior pandemia mundial. Proveniente do oriente, assolou o planeta entre os anos de 1918-1919. Um terço da população da Terra foi infectada pelo vírus, e tornou-se a doença infecciosa que mais causou vítimas. Durou cerca de um ano e teria contribuído para cerca de 50 a 100 milhões de mortes, o que representava algo em torno de 5% da população mundial.  Matou mais pessoas em 25 semanas do que a AIDS em 25 anos.

Em 2009 apareceu a Pandemia de Gripe Suína, posteriormente rotulada de Gripe A. Causada pelo vírus H1N1, provocou a morte devido a problemas respiratórios, tendo recaído principalmente sobre as pessoas mais novas, entre os 5 e os 24 anos.

Capítulo VIII: Conclusão

Por fim, ao responder sobre o futuro mundo pós-Pandemia Covid-19, após o passeio histórico-filosófico, o Sapateiro de Bruxelas chega a seguinte e mui esperada conclusão:

Não há como negar, objetivamente que a Pandemia existe ou existiu independente da consciência e das nossas crenças, bem como outros inúmeros acidentes da História Universal.

Porém, Covid-19 deverá deixar de existir brevemente, e o mundo e as pessoas seguirão evoluindo em círculos, porém agora em ritmo eletrônico, ainda mais frenético e alucinante.                               

A encerrar a live, diz que nos últimos setecentos séculos, desde a Revolução Cognitiva até Revolução Digital, a humanidade desfrutou do livre-arbítrio e viveu sob a égide do medo hobbesiano. Nunca mudou seu comportamento básico e elementar com ou sem pandemias. Portanto, não será dessa vez que ocorrerão grandes mudanças.

Epílogo

 E arremata na hora do adeusinho: C’est la vie. Son les hommes...

 

PS. Dedico este artigo ao amigo fraterno Gláucio Franklin da Silva.

 

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