Cabo Verde serve de exemplo e sugere ações para nosso país, para o estado e em especial para a região de Caxias do Sul.
Dar atenção especial para o mapa do futebol mundial exige abandonar velhos dogmas do provincianismo gaúcho. Enquanto o futebol do Rio Grande do Sul frequentemente se fecha em suas próprias rivalidades e nos limites territoriais do país, a 5 mil quilômetros daqui uma nação do tamanho semelhante a um município gaúcho acabou de provar que fronteiras geográficas só limitam quem não tem projeto.
A estratégia, ou a matemática é simples, mas incômoda. Cabo Verde, um país de dez ilhas vulcânicas espremidas no Atlântico, tem cerca de 560 mil habitantes. Caxias do Sul, a força motriz da nossa Serra, ostenta perto de 460 mil moradores. A escala populacional é equivalente. O território cabo-verdiano (4.033 km²) cabe com folga dentro do mapa de alguns dos nossos maiores municípios regionais.
A diferença? Cabo Verde acaba de parar o planeta ao disputar a Copa do Mundo de 2026, bater de frente com potências globais e colocar o seu nome na elite do esporte mundial. Caxias do Sul, por sua vez, celebra a permanência de suas duas tradicionais e centenárias equipes, Juventude e Caxias, nas Séries B e C do Campeonato Brasileiro.
Riqueza e concreto de sobra, projeto de menos
Quando aprofundamos a análise para a economia e a infraestrutura, a comparação se torna ainda mais surpreendente. Caxias do Sul é um gigante econômico. Seu Produto Interno Bruto (PIB) gira na casa dos R$ 30 bilhões — o segundo maior do Estado e uma potência industrial do país. Cabo Verde, como nação soberana inteira, registra um PIB total próximo a R$ 16 bilhões. Ou seja: um único município do interior gaúcho produz quase o dobro da riqueza de todo o país africano.
Essa disparidade financeira se reflete também no concreto. Caxias do Sul abriga dois estádios de grande porte aptos para o futebol nacional: o Alfredo Jaconi, do Juventude, e o Estádio Centenário, da S.E.R. Caxias — este último com capacidade para mais de 22 mil torcedores. Se avançarmos o olhar para Erechim, que ostenta o Estádio Colosso da Lagoa, do Ypiranga, o maior estádio do interior e o terceiro maior do Estado (atrás apenas de Beira-Rio e Arena do Grêmio), capaz de receber mais de 26 mil pessoas.
Enquanto isso, Cabo Verde manda a maioria de seus jogos internacionais no modesto Estádio Nacional, na capital Praia, para pouco mais de 15 mil espectadores. A conclusão é inescapável: não nos falta dinheiro, não nos falta PIB, não nos faltam estádios imponentes. Falta-nos visão?
A diáspora X o isolamento
O sucesso dos Tubarões Azuis na Copa do Mundo não foi sorte. Foi fruto de engenharia de gestão inteligente. Sem grandes orçamentos ou arenas milionárias, a Federação Cabo-Verdiana mapeou o mundo. Identificou a diáspora da sua gente na Europa, estruturou redes de captação em Portugal, Holanda e França, e articulou uma seleção competitiva combinando pratas da casa com atletas formados no topo do futebol europeu. Romperam o isolamento geográfico com inteligência estratégica.
Enquanto isso, o modelo do futebol do interior gaúcho insiste em fórmulas ultrapassadas. Reféns de folhas pagas inflacionadas para campeonatos estaduais curtos, dependentes de mídias locais e de contratações sazonais de tiro curto, nossos clubes parecem condenados a um teto de vidro. Falta integração global, falta prospecção internacional e, sobretudo, falta ambição institucional.
O desafio para o nosso futebol
Caxias do Sul e Erechim são polos econômicos pujantes e orgulhos do RS. Têm renda, PIB elevado, indústrias fortíssimas e estruturas esportivas invejáveis. No entanto, a distância entre a nossa província e o topo do futebol internacional continua abissal.
Cabo Verde nos ensina que progresso esportivo não se mede pelo valor do PIB municipal nem pelo tamanho das arquibancadas de concreto. Mede-se por capacidade de planejamento, captação global de talentos e ousadia para quebrar paradigmas.
Se um pequeno país insular, com metade da riqueza de Caxias do Sul, conseguiu colocar seu nome no maior palco da Terra, o que impede o futebol gaúcho de pensar gigante? A resposta não está na falta de recursos, mas na urgência de um projeto que consiga enxergar além das nossas divisas.