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Opinião

Disputas discursivas na Capital da Amizade

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Henrique Trizoto
Por Henrique Trizoto
Foto Divulgação

A construção discursiva acerca do passado / presente parte essencialmente de duas questões: “o que lembrar?” e “para que(m) lembrar?”. Nossa proposta não é praticar um reducionismo, mas pontuar como estas questões dialogam com a sociedade local. Com isso, analisaremos quais elementos contribuem para construção desta narrativa.

Primeiramente, “o que lembrar?” parte da premissa de que “é pela memória que se puxam os fios da história. Ela envolve a lembrança e o esquecimento, a obsessão e a amnésia, o sofrimento e o deslumbramento [...] Sim, a memória é o segredo da história, do modo pelo qual se articulam o presente e o passado, o indivíduo e a coletividade. O que parecia esquecido e perdido logo se revela presente, vivo, indispensável. Na memória escondem-se segredos e significados inócuos e indispensáveis, prosaicos e memoráveis, aterradores e deslumbrantes” (IANNI, 1999, s/p).

Portanto lembrar é o ato de escolher algo para ser referenciado sobre determinado ato. Onde podemos inverter a lógica e refletir, que na verdade, escolhemos o que esquecer. Assim, transitamos para a segunda questão: “para que(m) lembrar partindo do pressuposto que “a memória torna as experiências inteligíveis, conferindo-lhes significados. Ao trazer o passado até o presente, recria o passado, ao mesmo tempo em que o projeta no futuro; graças a essa capacidade da memória de transitar livremente entre os diversos tempos, é que o passado se torna verdadeiramente passado, e o futuro, futuro, isto é: dessa capacidade da memória brota a consciência que nós, humanos, temos do tempo” (AMADO, 1995, p.132).

A premissa de “escolher o que esquecer” é complexa, tendo em vista que muitas vezes ela é inconsciente. Um exemplo disso, é quando se usa expressões como “último núcleo do Estado a ser povoado”, a “última região a receber contingentes populacionais” ou quaisquer outras que mencionem o fato de que somente por meio da política do governo Estadual na primeira década do século passado que a região passou a ser habitada. Ignora-se o fato que na região existiam povos indígenas, caboclos, negros e até mesmo posseiros.

A construção discursiva em questão aponta que oficialmente os (i)migrantes, chegaram em uma terra inóspita e construíram sua trajetória. Isso ocorreu de fato. Mas cabe aqui refletir, que sem a presença dos grupos supracitados o processo seria exponencialmente mais complexo. Afinal os povos indígenas, caboclos e negros que ocupavam as terras devolutas foram fundamentais no auxílio às equipes de agrimensores e aos colonos devido aos seus conhecimentos sobre o território da Colônia Erechim.

Friso, que são formulações oficiais que foram consolidadas ao longo do século XX, em um contexto que a historiografia oficial brasileira seguia o viés que privilegiava a história dos grandes homens e era essencialmente documentalista. Somente com o advento das novas teorias da história passou-se a refletir sobre esses “novos” velhos atores sociais. A construção discursiva, portanto, possibilita interpretações / reinterpretações que podem gerar produções científicas com aproximações e tensionamentos sobre a historiografia de um determinado processo.

Referências

AMADO, J. O Grande Mentiroso: tradição, veracidade e imaginação em história oral. História. São Paulo, n.14, p. 125-136, 1995.

IANNI, O. A ditadura militar no Cárcere. Caros amigos. São Paulo: Casa Amarela, n. 32, p. 10, nov. 1999.

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