“Traçar a genealogia aprofundada de uma família é uma tarefa difícil. Com o passar dos anos, documentos se perdem, grafias de nomes mudam, sem falar na falta de continuidade da história oral passada entre gerações”.
Reminiscências
Os italianos, que chegaram ao sul do Brasil, vieram de lugares empobrecidos. Originários da Região do Vêneto – norte da Itália – sonharam com uma vida melhor. O grande êxodo começou nos finais do século XIX. Os motivos para abandonar a Itália foram a unificação das províncias e a industrialização, assim, muitos ficaram sem trabalho. As comunas eram dominadas por importantes e ricas famílias. Estas, pagavam muito pouco aos trabalhadores. O trabalho na terra simbolizava a miséria e as duras condições de vida, que as famílias sofreram. As dificuldades de sobrevivência as fizeram partir em busca de mais segurança e bem viver.
A Saga da Família de Giuseppe Paolo Reginatto
Meu avô paterno. Ele nasceu em 25 de julho do ano de 1879 na comuna de Paderno Del Grappa, Região do Vêneto, norte da Itália, Província de Treviso.
Paderno Del Grappa
Fica no sopé do Monte Grappa. Este faz parte dos Dolomitas, uma cadeia montanhosa dos Alpes. Muitos sobrenomes conhecidos migraram do lugar: Reginatto, Andreatta, Basso, Morosine
Giuseppe Paolo Reginatto
Ele, ainda criança, embarcou com os pais e mais oito irmãos no Porto de Gênova rumo a Buenos Aires, Argentina. Estabeleceram-se em Rio Quarto, Província de Córdova, no norte do país. Com o tempo, adquiriram mais terras. Plantavam trigo e criavam gado.
Anos depois, ele vendeu a parte que lhe cabia e veio para o Brasil, no RS, juntamente com alguns primos. Os pais e irmãos continuaram na Argentina. Compraram terras em Santa Cruz do Sul e meu avô adquiriu gleba de terra em Venâncio Aires. Cultivou trigo e fumo. Possuiu, também, razoável rebanho bovino.
Aos 27 anos, no dia 5 de agosto de 1911, casou-se com Giusephinne Giacomelli, natural de Caxias do Sul. Naquelas terras, nasceram quatro dos cinco filhos: o mais velho morreu muito jovem: Antônio, Deonilda, Normélio – meu pai – e Nelly que nasceu em Erechim.
Erechim, o próximo destino
Meu avô, que nunca se naturalizou, ouviu falar das terras novas e da estrada de ferro no norte do Estado. Vendeu suas propriedades em Venâncio Aires e veio para Erechim. Comprou vários terrenos na hoje Avenida Sete de Setembro. Foram os primeiros a nela chegarem. Muito mato e estrada de chão. No início, construíram uma casa de madeira na esquina, onde hoje é o Domenico.
No ano de 1936, mandou construir moderna residência de alvenaria de dois pisos, em “Art Déco”, a primeira da Avenida Sete como moradia e como casa de comércio. No andar superior, morou a família e no andar térreo, iniciou uma casa de comércio, que era atendida pelos filhos Normélio e Antônio. Esta residência lá se encontra onde hoje é a Loja Lorenci. Sua fachada está um pouco modificada, mas seus traços originais ainda podem ser vistos: as sacadas, os detalhes em alto relevo e o cimo da parte frontal. A parte interna ainda guarda grossas tábuas de madeira nobre.
A casa de comércio
Meu pai, Normélio, era o encarregado das compras e o irmão Antônio era o que atendia. Vendiam tudo do que a comunidade necessitava. Foi o shopping de antigamente. Compravam do colono a produção agrícola e animal e, em troca, abasteciam a família rural com produtos essenciais para o seu consumo. Para os habitantes da cidade, a cobrança era feita através da conta de caderno. Para cada família havia uma caderneta, onde eram anotadas as despesas. Meu pai havia sido aluno do Professor Mantovani e era bom nas “contas”. Quando, no fim do mês, entrava o dinheiro, a dívida era zerada. Dificilmente aconteciam calotes. A conta de caderno foi a bisavó do cartão de crédito.
As compras
Muitas mercadorias chegavam por trem, outras vinham das” terras velhas”, principalmente de Caxias do Sul e Bento Gonçalves. De vez em quando, aparecia um viajante-vendedor, que fazia as encomendas. A Casa vendia de tudo: tamancos, chinelos e alpargatas. Em frente ao balcão, sacos abertos com arroz, feijão, farinha de trigo e de milho, erva mate, que eram vendidos a granel. Nas prateleiras, o sabão, sabonete, pedra-pomes, velas de sebo e de espermacete (gordura de baleia), lampiões e panelas de polenta. Canecas, bacias, urinóis e bandejas alouçadas e esmaltadas. Vendiam também ferramentas em geral: martelos, torqueses, alicates, chaves de fenda, rodas de carroça, fechaduras, trincos e variada espécie de arames. Não faltavam os rojões, bombas, busca-pés, espoletas. Estes, faziam a festa em São João e para comemorar casamentos. Sempre havia tonéis com solvente, azeite. Tudo podia ser vendido a granel: café, açúcar, sal, temperos, toucinho, mel e schimier.
Conclusão
Meus pais Normélio e Thereza Zanella, casaram no dia 24 de junho de 1942- Dia de São João, na saudosa Igreja Matriz São José, que a Família muito contribuiu para a sua construção. Contaram que o dia foi tremendamente frio, flocos de neve caíram. A festa aconteceu no prédio da Avenida Sete e durou dois dias, com direito a baile também. Em 1946, meu avô vendeu o que possuía em Erechim e foi com a família para o Paraná colocar engenho de madeira de imbuia. Meu pai permaneceu aqui, também no ramo com madeira. Há vários anos, levei meus pais para a Argentina para encontrarem a família que lá ficou. Meu pai encontrou uma prima, que morava na cidade de Rio Quarto- e nove primos, fazendeiros no interior de Córdova. Tudo o que foi narrado foi fruto dos encontros em família e alguns registros. A reconstituição do passado depende da colaboração daqueles que guardam na memória os fatos e acontecimentos.