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Opinião

Disputas discursivas na Capital da Amizade II

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Henrique Trizoto
Por Henrique Trizoto
Foto Divulgação

Para prosseguir com a análise das disputas discursivas que permearam a construção da Capital da Amizade retomamos as ideias de “o que lembrar” e “para que(m) lembrar?” sob a perspectiva da memória enquanto um atributo construído coletivamente por meio de processos individuais.

O historiador Enrique Padrós aponta que “Estudos de diversa origem disciplinar coincidem na experiência compartida da memória, ou seja, na sua natureza social. Mesmo quando envolvem experiências pessoais, as lembranças resultam da interação com outras pessoas (seja na forma de objetos, palavras etc.). Não só isso, a memória passa a ser um fator fundamental de identidade e de suporte dos sujeitos coletivos como desempenha, também, uma função importantíssima, tanto na preservação da experiência histórica acumulada, de valores e de tradições, como, em muitas situações, pretende ser a depositária da própria história. [...] É inegável que, representando interesses de certos setores ou da comunidade como um todo, a memória, transformada em senso comum, é uma referência de coesão identitária e faz parte da cultura política de uma determinada sociedade (PADRÓS, 2001, p. 80).

Ou seja, as interações sociais vão construindo a narrativa de uma comunidade, que é representada pelos saberes, fazeres e pelos objetos deste grupo social. O Baranek e o Pisanki da etnia polonesa, o bigolaro da etnia italiana, a capoeira da etnia negra são exemplos destes elementos que constituem a memória dos grupos sociais que compuseram a cidade de Erechim.   

A questão que queremos ponderar é que “[...] a memória enquanto processo subordinado à dinâmica social desautoriza, seja a ideia de construção do passado, seja a de uma função de almoxarifado desse passado. A elaboração da memória se dá no presente e para responder a solicitações do presente. É do presente, sim, que a rememoração recebe incentivo, tanto quanto as condições para se efetivar” (MENESES, 1992, p. 11)

Neste sentido, estes grupos sociais procuram “manter viva” a memória dos antepassados por meio destes saberes, fazeres e objetos. O ponto aqui, é que mesmo estes processos passam / passaram ao longo da história por condicionamentos de acordo com o período em que estava ocorrendo. A escravidão, a imigração, a Independência do Brasil e a construção dos seus mitos e dos mártires, a campanha de nacionalização do Estado Novo e a consequente proibição de se falar outros idiomas que não o português e o regime militar de 1964 são exemplos de acontecimentos que podem ter interferido.

Assim, é pertinente que nosso olhar sobre todo e qualquer processo leve em consideração o período histórico em que ele originalmente ocorreu. Pratos típicos daqui podem não ser mais típicos nos centros urbanos europeus. Até porque, a cultura é fluida e mutável. Mas, inegavelmente estas construções simbólicas são fundamentais para a compreensão de todos os elementos que permearam o desenvolvimento e a consolidação da comunidade local.

Referências

MENEZES, Ulpiano Bezerra de. A história, cativa da memória? para um mapeamento da memória do campo das ciências sociais. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, [São Paulo], 1992.

PADRÓS, Enrique Serra. Usos da memória e do esquecimento na História. Letras, n. 22, p. 79-95, 2001.

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