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Opinião

O Sapateiro de Bruxelas e a Arte de Falar Mal

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Dr. Alcides Mandelli Stumpf
Por Dr. Alcides Mandelli Stumpf
Foto Divulgação

Na última preleção aos amigos do cafezinho, o Sapateiro de Bruxelas optou por abordar um tema deveras interessante no seu entender. Dessa vez, trata-se de um tipo de manifestação artística muito peculiar e bastante conhecida por todos os presentes frequentadores da roda de café: a arte de falar mal. Ou dito de modo mais informal e corriqueiro: a arte de fofocar.

Segundo o mestre – que se autointitula especialista no ramo - a execução de tal habilidade exige alguns atributos bem definidos que tornam sua prática, de certa forma, idêntica em qualquer paragem do planeta, a exemplo da pintura, música e demais manifestações sublimes do espírito humano.

Na sequência, o mestre enumera alguns “Mandamentos Maiores” ou pré-requisitos fundamentais e absolutamente indispensáveis ao cumprimento da ritualística necessária a tal execução.

Pormenores de grande valor e aplicabilidade são detalhados pelo belga que didaticamente passa um a um.

A primeira premissa é que a arte deve ser praticada preferencialmente entre duas pessoas, independente de sexo, religião ou qualquer outro atributo físico ou mental. O importante é que haja afinidade contextual e alguma intimidade entre os praticantes. Número maior de envolvidos possibilita a hipótese de vazamento, o que inadmissível a um bom fofoqueiro; explica que a maldade deve fluir a conta-gotas ou perderá seu efeito e função. O tempo ideal da falação deve ficar entre quarenta e cinco e noventa minutos. Em casos excepcionais poderá haver uma prorrogação de no máximo meia hora.

Eis o segundo e óbvio mandamento: não será permitido falar mal dos presentes; por questões éticas, só será permitido denegrir a figura dos ausentes. Essa é uma lei primordial e jamais deverá ser descumprida.

Terceira e natural orientação: há que se manter uma distância adequada entre os interlocutores, que varia de no mínimo cinquenta e oito centímetros a no máximo, um metro e vinte sete. Proximidade maior poderá ser avaliada como comprometedora entre as partes e trazer certo mal-estar ao ouvinte (salvo se o dito sofrer de problemas auditivos).

Por outra, afastamento maior tenderá exigir tom de voz mais alto e inadequado ao tratamento às causas e personagens envolvidos em questões por vezes não muito nobres.

Desse modo, torna-se imperioso que as palavras sejam bem articuladas, com boa dicção e sonoridade adequada para que não haja quebra do raciocínio e relato, que deverá ser invariavelmente minucioso, contemplando todos os detalhes, inclusive anatômicos dos citados ou citadas.

Aqui recomenda o expert, que não se faça uso de palavras de calão, guardando-as para transcrições ipsis litteris, absolutamente indispensáveis enriquecedoras, especialmente quando a prosa envolve cenas cruas de sexo ou façanhas assemelhadas.

Lembra ainda, que jamais um fofoqueiro sênior deve emitir juízo de valor sobre a peça em palco. Deixa ao elemento passivo, o ouvinte, a conclusão lógica ou ilógica (melhor ainda) do julgamento e devidos desdobramentos do caso em tela – como falam alguns doutos causídicos no exercício de seu nobre ofício, bem como ante os percalços da vida alheia que são a sua especialidade.

À parte ativa ou falante, o mestre recomenda cuidado especial com a higiene oral e problemas de ozostomia. Reforça o sábio que não existe nada mais repugnante que um emissário que além do mau hálito lance perdigotos na direção do abnegado escutador.

Segurar o parceiro ou parceira pelo braço ou qualquer outra parte do corpo também é falta grave, além de expor a risco de acusação por assédio e atentado às boas maneiras.

Ambientes silenciosos ou com leve ruído de fundo são os mais indicados para prática do fuxico. Sugere templos esotéricos, retiros naturais ou um Café levemente movimentado, no máximo uma casa de chá de boa reputação na praça. Acentua que lugares um tanto heterodoxos, muitas vezes são propícios a estímulos externos inovadores dando vida, novas cores, odores e versões a fatos que de fato jamais existiram, além de servirem de campo às preliminares, que posteriormente se transformam em maravilhosos despachos noticiosos a serem saboreados na companhia de amigos e amigas.

Expressa que a ansiedade incontida, faz do ouvinte curioso uma presa fácil da astúcia, literalidade e criatividade comunicativa do narrador.

No entanto, há que se ter cuidado com as paredes, pois como é sabido por todos, estas têm ouvidos. A presença do vento acima de três nós, ou seja, superior a cinco quilômetros e quinhentos e cinquenta e seis metros por hora, também deve ser considerada com extrema cautela, à medida que as palavras podem voar a lugares e ouvidos indesejados.

Lembra ainda, que ocorrem alguns tipos variantes na prática da nobre arte: bisbilhoteiros eméritos, cortejadores um tanto fúteis, são exímios na sondagem das maledicências. Estes, a exemplo dos puros e originais, cultivam com esmero a reputação pessoal de guardar segredos, e justamente por isso, são bem aceitos nas diversas rodas sociais e políticas – inclusive de café.

Outros fuxiqueiros dissidentes, por adotarem o odioso comportamento do “politicamente correto” devem ser tratados como desertores e acusados de vários defeitos inaceitáveis. O mais traiçoeiro dentre os desvios intoleráveis a um ex-maldizente é ser flagrado como um incurável egoísta ou “fechado em copas”, de modo a romper a corrente do diz que diz que e desta forma prejudicar a performance do grupo sobre imaginário comportamento de outrem.

Por via das dúvidas o experiente coureiro recomenda o padrão ouro na postura do difamador: discrição, modulação de voz e certa aura de mistério.

Assegura o belga - dedicado conhecedor da matéria - que segundo pesquisas recentes realizadas por Harvard e confirmadas por Oxford, Universidade de Pádua além de Coimbra, os temas mais frequentes e rentosos envolvem conjugalidade em suas diversas expressões e variações – ênfase em adultério. Logo atrás vem o ambiente de trabalho e as celebridades locais associadas a política, cambalachos, espionagem, desvios do erário e propinas, seguidas de grandes mancadas ou gafes sociais, indo até doenças imaginárias, crônicas ou agudas, dos ou das personagens em evidência. Cirurgias plásticas visíveis e invisíveis também são muito comentadas.

Ressalta o coureiro que todo o intrometido em assuntos alheios deve ser pragmático de carteirinha. A férrea convicção o leva a frequentar variadas formas de ajuntamentos públicos tais como velórios, formaturas, aniversários infantis, celebrações religiosas, quermesses beneficentes, batizados, além de outros encontros festivos de vários fins e quilates. Igualmente se faz presente em bares, restaurantes e inferninhos com o propósito expresso de ouvir e ver em detalhes tudo que de bom ou ruim acontece na vida grupal e principalmente na vida privada de cada um de seu círculo de relações ou mesmo fora dele.

Ao encaminhar o final de sua prédica o velho adota uma postura triste e recatada, quase fúnebre. Lamenta que na atualidade a arte de falar mal passe por franca e irremediável decadência. Para o calejado artesão, os meios eletrônicos através das redes sociais, com especial destaque para o Facebook, Twitter e WhatsApp, estão simplesmente acabando com a gloriosa arte de falar mal. As mídias cibernéticas eliminam definitivamente o realce, a pulsão e a perspicácia vitais ao glamour da “novidade”.

Boatos, notícias de fontes mais que duvidosas e infundadas, foram grosseiramente suplantados pelas infames Fake News praticadas a rodo pela grande imprensa no atacado e por alguns fanáticos mais exaltados no varejo.

Os atuais detratores em boa parte são escroques de baixa estirpe, que através de visões distorcidas pelo sectarismo ideológico se encarregam de tirar a graça das coisas.

Antigamente as inverossimilhanças eram produzidas de forma artesanal, criativas, com capricho e sem muita maldade. Hoje, sem dúvida, predominam os Ministros dos Sussurros, carregados de ódio, inveja, perversidade e desesperança.  

Na sequência arrastam-se cadeiras em volta da mesa, pede-se mais um café e a conversa prossegue do modo costumeiro. O murmúrio de aprovação por parte dos pares alegra o Sapateiro de Bruxelas. Logo, ele se despede e sai devagar. Parece mancar um pouco – não se sabe se por faceiro ou por sem vergonha mesmo. Mas percebe-se que o velho fofoqueiro está contente em deixar sua mensagem, ao vivo e sem máscara, como fazia no passado, antes da pandemia.

 

 

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