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Opinião

Desconforto

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Clovis Lumertz
Por Clóvis Lumertz – Empresário
Foto Clóvis Lumertz

Bons conselhos são aqueles que se permitem momentos de desconforto.

É nesse espaço, meio incômodo e até pesado às vezes, que surgem as perguntas que realmente importam para o futuro do negócio.

— Vamos ao que já está virando tradição nesta mesa: o “Momento Desconforto”. Não se preocupem, não é nada grave. Ninguém vai ter que pagar flexões. Só vou lançar aquelas perguntinhas que fazem a gente desviar o olhar pela janela e fingir que não ouviu, mas que, se não forem feitas, mais tarde vão nos perseguir.

— Lá vem o “trote” da reunião.

— Exato. Só um trote saudável. Então, aqui vai a primeira: se a nossa empresa sumisse amanhã, quem realmente sentiria falta dela?

— Ih, essa doeu.

— Calma, tem mais. Segunda: o que estamos fazendo hoje que, em cinco anos, pode parecer completamente ultrapassado ou até ridículo?

— Já estou vendo meu neto, o sucessor, rindo do nosso “jeitinho manual” de fazer relatórios.

— Pois é. Terceira pergunta: se entrasse um concorrente muito mais ágil, tecnológico e barato no mercado amanhã, quanto tempo sobreviveríamos antes de perder clientes?

— Você não quer mudar o nome de “Momento Desconforto” para “Momento Depressão”?

— Mas é justamente esse o ponto. O desconforto é o empurrão que precisamos. Mais uma, para fechar com chave de ouro: qual é o risco que todo mundo aqui sabe que existe, mas ninguém tem coragem de colocar na pauta? E outra: quem estamos segurando na empresa, mas sabemos que não vai entregar mais?

— ...

— Viram? Esse silêncio já diz muita coisa.

— Tá bom, missão cumprida. Agora podemos voltar para a parte “confortável”? Acho que prefiro avaliar o caixa negativo, o baita endividamento e o estoque na estratosfera.

— Claro. Mas lembrem-se: conselho que só conforta dá pra chamar de “almofadinha”. Conselho de verdade incomoda. Na próxima reunião, trago outras cinquenta questões incômodas.

— Dona Maria! Chá de camomila, por favor.

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