Bons conselhos são aqueles que se permitem momentos de desconforto.
É nesse espaço, meio incômodo e até pesado às vezes, que surgem as perguntas que realmente importam para o futuro do negócio.
— Vamos ao que já está virando tradição nesta mesa: o “Momento Desconforto”. Não se preocupem, não é nada grave. Ninguém vai ter que pagar flexões. Só vou lançar aquelas perguntinhas que fazem a gente desviar o olhar pela janela e fingir que não ouviu, mas que, se não forem feitas, mais tarde vão nos perseguir.
— Lá vem o “trote” da reunião.
— Exato. Só um trote saudável. Então, aqui vai a primeira: se a nossa empresa sumisse amanhã, quem realmente sentiria falta dela?
— Ih, essa doeu.
— Calma, tem mais. Segunda: o que estamos fazendo hoje que, em cinco anos, pode parecer completamente ultrapassado ou até ridículo?
— Já estou vendo meu neto, o sucessor, rindo do nosso “jeitinho manual” de fazer relatórios.
— Pois é. Terceira pergunta: se entrasse um concorrente muito mais ágil, tecnológico e barato no mercado amanhã, quanto tempo sobreviveríamos antes de perder clientes?
— Você não quer mudar o nome de “Momento Desconforto” para “Momento Depressão”?
— Mas é justamente esse o ponto. O desconforto é o empurrão que precisamos. Mais uma, para fechar com chave de ouro: qual é o risco que todo mundo aqui sabe que existe, mas ninguém tem coragem de colocar na pauta? E outra: quem estamos segurando na empresa, mas sabemos que não vai entregar mais?
— ...
— Viram? Esse silêncio já diz muita coisa.
— Tá bom, missão cumprida. Agora podemos voltar para a parte “confortável”? Acho que prefiro avaliar o caixa negativo, o baita endividamento e o estoque na estratosfera.
— Claro. Mas lembrem-se: conselho que só conforta dá pra chamar de “almofadinha”. Conselho de verdade incomoda. Na próxima reunião, trago outras cinquenta questões incômodas.
— Dona Maria! Chá de camomila, por favor.