Nos últimos tempos, tenho percebido cada vez mais a autonomia do meu filho e, junto a isso, uma vontade genuína de ajudar, de se sentir útil. Neste final de semana, durante a faxina, ao vê-lo passando o aspirador, depois limpando a calçada na casa da avó, indo ao banheiro sozinho e até servindo o próprio chimarrão, comecei a refletir sobre alguns pontos. Um deles foi aquela famosa frase que pais e mães costumam repetir: “Olha a maternidade/paternidade dando retorno”.
Já disse isso algumas vezes e, confesso, nunca vi problema. Não que eu tenha passado a ver como algo negativo, mas comecei a prestar mais atenção no meu tom, para não ultrapassar certos limites. Sempre encarei como uma brincadeira, dita em momentos de descontração e até com certo orgulho, por ver que ele está aprendendo o que tentamos ensinar. E acredito, sim, que criar ambientes saudáveis, com leveza e brincadeiras, é importante para o desenvolvimento. Mas é justamente aí que mora o perigo. Nem toda brincadeira é inofensiva quando não temos clareza sobre o que estamos projetando no outro, especialmente quando esse "outro" é uma criança.
A verdade é que, quando falamos de relações humanas, e ainda mais de vínculos como os de pais e filhos, não há contrato, nem deveriam existir expectativas. Diferente de quando se contrata um serviço, onde, de fato, se espera um retorno, filhos não são prestadores de serviço. Amor, cuidado, presença e dedicação não são investimentos financeiros que um dia devem “dar retorno”. São escolhas.
Esperar um retorno na paternidade ou maternidade é, no fundo, uma forma de cobrança emocional disfarçada de carinho. É transferir uma expectativa que é só nossa, construída a partir das nossas faltas, frustrações e idealizações. E ninguém, absolutamente ninguém além de nós mesmos, tem a obrigação de suprir isso.
A paternidade e a maternidade não deveriam ser espaços de carência ou compensação emocional. Deveriam ser lugares de amor genuíno, aquele que se doa por inteiro sem esperar nada em troca. Isso não significa que crianças não devam ter responsabilidades. Muito pelo contrário. Aqui em casa, meu filho já entende os combinados, sabe o que precisa fazer e tem tarefas adequadas à sua idade. Mas tudo isso é para que ele aprenda a ser responsável por si mesmo e não para que acredite que está “nos retribuindo” algo porque tenha qualquer dívida conosco. Até porque, ele simplesmente não tem.
Se alguém pensa em ter filhos com a esperança de receber algo em troca, seja cuidado na velhice, gratidão ou reconhecimento social, é melhor rever esses conceitos. Porque paternidade e maternidade não são moedas de troca. São escolhas. Escolhas genuínas. Ou, ao menos, deveriam ser. Expressões de altruísmo puro e simples. Pode parecer duro, mas não devemos nem esperar que eles nos amem, principalmente se não soubermos amá-los verdadeiramente.
Talvez, se falássemos mais sobre presença, entrega e autonomia, estaríamos criando filhos mais livres e, consequentemente, pessoas mais conscientes de que ninguém deve viver para atender às exigências do outro. Alinhar expectativas é um ato de responsabilidade emocional, pois relações saudáveis não sobrevivem a uma sobrecarga de desejos não comunicados e suposições.
A única obrigação real que temos é com nós mesmos. O resto é escolha. E, com sorte, vem acompanhado de afeto, amor, respeito, empatia e cuidado.