Nas páginas iniciais de Nislau, o pirata do olho de vidro, publicado no final de 2026, pela Editora Physalis, diz o autor: “Lida, de agora em diante, ela lhe fará companhia.” E que adorável companhia nos faz esta obra brotada da memória e plena “da poesia da gente simples do campo. Gente que presenciou o inexplicável”.
A voz que narra é a do adulto, porém, é uma voz que permanece íntima dos reinos da infância e, por isso, recupera tempos e lugares com a leveza, ludismo e o espírito especulativo da criança que habita os refolhos da alma do autor-narrador. O menino que viveu a história espia por sobre o ombro do narrador adulto. Por vezes, se fundem: “desde criança eu copio o choro dos que amo”. Ou: “criança pensa. Pensa e sofre”.
O autor põe em pé, com palavras, um tempo e um povoado. Recupera poeticamente o clima dos dias vividos, os encontros felizes, a dor, a perda, os rituais, os costumes, a culinária.
Muito pequeno o narrador experienciou a dinâmica da morte e justamente a morte do avô brincante, o avô com um olho de vidro, seu companheiro de imaginação. Um tapa-olho e pronto. Sai o avô, surge o pirata. O jardim virava mar e o mar era o limite.
Quando o avô “pirata” adoece, sombras tristes pasmam o menino: “Ele tá tão magrinho, mãe!” A finitude alcança tudo que existe. “Quando brincávamos éramos tão felizes!” Ele e o avô “pirata” do mar e da terra que viajava com ele em corsários e galeões.
A impermanência ronda a vida, as vidas, as coisas. O menino sente. Vê. Absorve. Guarda nos sentimentos. E, agora, adulto, transborda: “meus olhos vivem transbordados até hoje”, E então, “para que outros olhos transbordem”, conta, por escrito, estas passagens eternizadas na memória afetiva. Passeia pelo chão sagrado da infância e abre frinchas que o leitor de qualquer tempo e lugar pode habitar, inclusive porque, como diz Cecília Meireles, “todos os dias são dias novos e antigos, e todas as ruas são de hoje e da eternidade”.
O poético está o tempo todo presente no modo de narrar e na vida das pessoas daquele lugar e daquele tempo. A lida na roça é pesada, mas há “os milagres da natureza” que trazem maravilhamento e descanso poético. “Há sempre uma poética, o utilitário não basta, lembra-nos Michele Petit.
Vale destacar a cena em que a vizinhança acorre à casa do avô Nislau para orar pela saúde dele. As gentes não cabiam dentro de casa e se acomodaram debaixo das árvores para rezar. Isso é também um estado de poesia porque a solidariedade é poética. Esse movimento tão belo me lembrou os mutirões de outrora, no campo: pessoas reunidas para arar a terra, auxiliar nas colheitas, construir casas. Há muito lugar para a poesia nessas cenas de ajuntamento de mãos.
No centro do edifício erguido pelo autor com as memórias de sua infância, brilha o olho de vidro de Nislau. Brilho forte. Reverbera. Salta da página. Adquire vida própria. É um olho pra nunca mais esquecermos, uma vez que o tenhamos conhecido.
E para encerrar estas breves palavras, digo que, na linguagem desta narrativa, senti vibrarem certos acordes que lembram as falas poéticas de Riobaldo, personagem de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. Isto poderão conferir leitoras e leitores – e hão de ser muitos – que mergulharem nas páginas de Nislau, o pirata do olho de vidro.
P.S. Ao concluir a leitura do livro de Fabiano, voltei ao início e li tudo de novo
E, então, pensei: que boa conversa sobre os galopes da vida nestas linhas poéticas! Perplexidades, sustos, medos, inconstâncias, tristezas e, também, “outra vez em quando a alegria”.*
*Guimarães Rosa em Primeiras Histórias.