Os estudos epidemiológicos marcam a história e possuem uma importância essencial no que diz respeito à saúde coletiva, identificação da origem de doenças e impactos na sociedade. Vale ressaltar que é uma área ampla, com muita pesquisa, análise de dados, empenho e conhecimento. Com a pandemia do Coronavírus, o campo se tornou mais 'conhecido', comentado e até mesmo questionado por algumas pessoas.
Para explicar o assunto, a enfermeira, doutora em Epidemiologia e docente da URI – Erechim, Marciane Kessler, participou na noite de ontem (3) do programa Bom Dia Entrevista. Na oportunidade ela avaliou o cenário pandêmico, os desafios a médio prazo no campo da saúde pública e o diferencial a partir da imunização contra a covid-19.
Conhecimento científico
Um dos primeiros pontos citados pela especialista, refere-se à evidência que a Epidemiologia ganhou recentemente. “Há pouco tempo, nem todas as pessoas sabiam o que era uma epidemia, uma pandemia ou uma endemia. Hoje essas expressões já são comuns e as pessoas acabam comentando mais pelo amplo acesso à informação. Vale destacar que, nesse contexto, é imprescindível buscar a veracidade dos dados e a cientificidade dos dados por meio do acesso a fontes oficiais”, alertou.
Pandemia: desafios em um momento histórico
Ao recordar as diferentes fases que marcam a pandemia até o momento, Dra. Marciane reiterou que trata-se de um período histórico, desafiante e de significativos aprendizados. “Para todos os profissionais de saúde, tem sido algo delicado, pois todos os dias há muitas informações novas e precisamos nos manter atualizados, com a conferência das informações que chegam a todo momento, inclusive sobre vacinas. Além de pesquisadora e professora, atuo também no acompanhamento dos alunos nas atividades práticas. Ao passo que vivenciamos uma crise sanitária, aprendemos muito com tudo isso”, mencionou.
Vacina e múltiplos impactos positivos
Na opinião da docente dos cursos de Enfermagem e Medicina Veterinária da URI, ao analisar o cenário atual no enfrentamento da pandemia, é possível perceber uma redução significativa dos indicadores, tanto de casos ativos como de pacientes com complicações e óbitos. “Para exemplificar, no fim do mês de março de 2021, tivemos, no País, em torno de 3.800 óbitos (ao dia) e em meados de fevereiro deste ano, foram registrados 470. No RS, em março do ano passado, foram em torno de 240 vítimas (em um dia) e no dia 13 de fevereiro deste ano, foram oito vítimas. É uma redução significativa e isso é resultado da eficácia da vacinação”, enaltece.
No entanto, é preciso cautela, pois ainda há uma população mais suscetível a problemas a partir do contágio pelo Coronavírus, que são as crianças, as quais precisam ser vacinadas, e os adultos que ainda não completaram o calendário vacinal. “Enquanto tivermos uma população que não está imune, continuaremos com a alta transmissibilidade desse vírus, principalmente nessa população em que ele terá o poder de se modificar e não está descartada a possibilidade de novas variantes”, orienta Dra. Marciane.
Doses com eficácia e segurança comprovadas
Em meio a muitos comentários em relação às crianças e a baixa probabilidade de complicações a partir da covid-19, muitos pais acreditam que não é necessário vaciná-las. Segundo a doutora em Epidemiologia, a primeira questão que precisa ser esclarecida é que as doses passaram por estudos clínicos e todos os testes que levaram à eficácia e segurança comprovadas, assim como o Programação Nacional de Imunizações do Brasil que é referência mundial. “A pandemia é um problema de saúde pública. Iremos conviver com esse vírus para sempre mas as estimativas é que, a partir da maior cobertura vacinal, essa pandemia (número de casos descontrolado e que não há como fazer previsões) se torne uma endemia (casos isolados e que é possível estimar e mais fácil de controlar, a exemplo da febre amarela e dengue). Mas, para tanto, é preciso que todos colaborem e estejam imunizados”, afirmou.
Durante o bate-papo, Dra. Marciane pontuou que a pandemia veio para dar visibilidade ao Sistema Único de Saúde (SUS), que nem sempre era valorizado. “Foi o SUS o responsável pela vigilância de casos suspeitos, tratamento, estudos sobre as medidas de intervenção, reabilitação e, agora, fornece a vacina. Mesmo com tantos aspectos positivos, ainda há desafios e muito a ser melhorado. Para isso precisa haver mais investimentos e sensibilização dos gestores, com aumento de cobertura das Estratégias de Saúde da Família (ESF) e mais agentes comunitários”, declarou, citando que há estudos nacionais e internacionais que comprovam as melhorias que a ESF possibilita à saúde da população, pois é ela que está diretamente em contato com a comunidade e faz o acompanhamento para a prevenção de saúde.
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