Eles estão presentes em um espaço reservado da casa e até mesmo na bolsa. Ao surgir aquela dor ou desconforto, muitas pessoas não esperam muito para recorrer a algum medicamento (que ouviu falar ou recebeu indicação em outra oportunidade) na tentativa de buscar um alívio rápido. Contudo, o que nem todos lembram é que, o uso inadequado de medicamentos por tempo prolongado, pode gerar efeitos contrários ao esperado.
O coordenador do curso de Farmácia da URI, Luiz Carlos Chicota, afirma que é essencial a reflexão e uma mudança de postura para evitar complicações à saúde. Em entrevista ao Bom Dia ele assinala que, segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), no Brasil, em torno de 75% das pessoas fazem automedicação e isso é muito grave e pode provocar sérias consequências, tanto pelo uso inadequado, concomitantemente com outro medicamento, dentre outras situações. “Os dados apontam, ainda, que entre essas pessoas, em torno de 15% precisarão ser internadas e isso gera também um custo para o Estado. Por isso, é essencial cuidar e evitar esse tipo de situação”, destaca.
Acesso facilitado
Na avaliação do docente, a automedicação acontece pela facilidade no acesso à maioria dos fármacos e, em contraponto, pode haver a dificuldade de agendar uma consulta ou fazer um exame médico, o que também favorece a rápida adesão ao medicamento sem orientação. “Sabemos que as Unidades Básicas de Saúde (UBS’s) estão com mais profissionais, mas acredito que se houvesse uma agilidade mais significativa nos agendamentos, poderia contribuir para evitarmos o uso indiscriminado”, pondera.
Segundo o Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas (Sinitox), a primeira causa de intoxicação no país e no mundo é por medicamentos. “Sempre comentamos com os alunos: a diferença entre o remédio e uma substância tóxica é só a dose. Por isso, é necessária uma orientação, seja do médico ou do farmacêutico. Na tentativa de tratar um problema de saúde, a maioria das pessoas nem sempre lembra que outros podem surgir, inclusive o fato de que alguns medicamentos não estão livres de mascarar doenças muito graves. Uma aparente “simples dor de cabeça” é possível assinalar outros problemas. Outro exemplo é quem faz uso de anticoagulantes e toma Aspirina. Há riscos de uma potencialização do efeito e até mesmo hemorragias”, alerta professor Chicota ao mencionar que os anti-inflamatórios também são muito procurados, afinal, ninguém gosta de sentir dor, porém, alguns itens, com o uso contínuo, aumentam os riscos de problemas renais no futuro.
No caso da Hidroxicloroquina, acrescenta, trata-se de um antimalárico mas que, se não houver controle, há chances de causar sérias consequências porque destrói os glóbulos vermelhos, podendo levar a uma anemia.
Conscientizar é a essência
Para o coordenador do curso de Farmácia da URI, é imprescindível trabalhar aspectos de conscientização, mesmo que a automedicação continue a médio e longo prazo. “É necessário refletir e melhorar a postura, visando mais qualidade de vida. Algo precisa ser feito para orientar e evitar erros no uso dos medicamentos, afinal, cada organismo é diferente e os efeitos também serão distintos”, ressalta.
Ele acredita que isso já acontece no meio profissional mas deve haver uma intensificação no alerta sobre as múltiplas consequências, a toda sociedade. “No curso de Farmácia da URI também atuamos de maneira mais direta, com disciplinas específicas, mantendo o foco em que o paciente seja melhor orientado. O Conselho Regional de Medicina realiza um trabalho intenso com os profissionais e isso deve chegar mais perto da população”, salienta.
Um dos suportes já existentes é a Lei 1108/21 que incluiu, entre os objetivos do Sistema Único de Saúde (SUS), a realização de campanhas permanentes de conscientização contra a automedicação, a fim de informar e conscientizar a população dos riscos dessa prática, especialmente quanto à ingestão de antibióticos.
Dica: armazenamento dos medicamentos
Durante a entrevista, professor Chicota explicou sobre a tradicional “farmacinha” de casa, que deve estar localizada em um espaço que seja ao abrigo da luz e não tenha umidade para evitar que o medicamento altere seu efeito Outro aspecto que deve ser observado é a validade.
Já no momento de colocar fora, vale a atenção redobrada e a orientação básica é: não jogue no lixo comum, vaso sanitário, no ralo ou ainda na terra, pois irá contaminar o meio ambiente e toda a sociedade irá sofrer com seus impactos. Leve até uma farmácia para fazer o descarte adequado.