21°C
Erechim,RS
Previsão completa
0°C
Erechim,RS
Previsão completa

Publicidade

Saúde

Janeiro Branco: mês de atenção à saúde mental

Jovem que enfrenta depressão e ansiedade fala sobre a luta diária e psicólogo alerta para importância do tratamento

teste
A pandemia da covid-19 infelizmente agravou os quadros
Por Ragnara Zago
Foto Ragnara Zago/Arquivo pessoal

Imagine uma folha em branco. Nela, é possível escrever ou reescrever qualquer história. Não existem marcas, riscos, remendos e nada que comprometa sua principal função: dar início a algo novo. Quando um ano se finda, outro começa, como um livro de 365 páginas de folhas em branco. Nos espaços escrevemos capítulos dessa aventura chamada vida, mesmo que nem todos sejam agradáveis.

Pensando nesse clima, que principalmente o mês de janeiro representa na vida de toda a população mundial, foi criado o “Janeiro Branco”, movimento social dedicado à construção de uma cultura de saúde mental na humanidade. Seu objetivo é chamar a atenção dos indivíduos, instituições, sociedades e das autoridades, para as necessidades relacionadas ao bom funcionamento da mente dos seres humanos.

Por meio de palestras, campanhas, workshops, entrevistas, lives e outras ações, as pessoas são tocadas e atentam para pequenos detalhes do dia a dia, como um comportamento atípico de um colega, amigo ou conhecido, que pode servir de alerta para uma situação que precisa de intervenção terapêutica, ou simplesmente um ‘ombro’ para desabafar.

Explicação profissional

A reportagem do Jornal Bom Dia conversou com o psicólogo Muriel Vendruscolo, especialista em terapia cognitivo-comportamental, sobre a importância de existir um mês voltado à saúde mental. “As campanhas voltadas para esse tema, como é o caso do Janeiro Branco, são fundamentais para aumentar a conscientização e o interesse do público nos cuidados da saúde mental. Apesar dos números de casos serem enormes, essa condição ainda é muito estigmatizada, fazendo com que pessoas deixem de buscar tratamento por conta da discriminação sofrida ou vergonha”, relata Vendruscolo.

O profissional da saúde também revela que algumas das pessoas com a saúde mental afetada, são comumente consideradas preguiçosas, fracassadas e difíceis de conviver. “Sabe-se muito bem que não é nada disso. A saúde mental passou a ser mais valorizada nos últimos anos, apesar de ainda faltar muito para ela se tornar prioridade na vida das pessoas”, pontua.

Pandemia agravou os índices

A pandemia da covid-19 infelizmente agravou os quadros e índices de indivíduos com problemas relacionados à disfunção da mente. “Em 2019, cerca de 970 milhões de pessoas no mundo viviam com um transtorno mental, sendo que nesse mesmo ano, o Brasil foi considerado o país mais ansioso do mundo, e a pandemia que acabamos de passar desencadeou um aumento de 25% em casos de ansiedade e depressão no planeta, fazendo com que números que já eram altos, ficassem mais elevados. Esse período impulsionou o olhar para a questão da saúde mental, mostrando a sua importância e a necessidade de que tenham mais programas voltados para o tema”, explica Muriel.

Singularidade de cada ser humano

Com relação ao que se pode fazer para solucionar alguns dos problemas desencadeados pelos transtornos, Muriel afirma que cada ser humano é singular. “Não existe uma fórmula pronta, algo que vai funcionar para todos, afinal, cada um de nós é único, possui gostos diferentes e necessidades diferentes. Mas alguns hábitos costumam influenciar para uma boa qualidade de vida e saúde mental”, salienta.

Dicas

O psicólogo também dá algumas dicas, que procura ajudar e investigar com seus pacientes, sempre investindo no respeito, individualidade e particularidade de cada um:

- Sono de qualidade, geralmente 7 a 8 horas por noite;

- Atividade física regular. Nós fomos “feitos” para estar em movimento e a atividade física é um dos melhores ansiolíticos existentes;

- Cuidados com alimentação, ter uma dieta de qualidade influencia muito no nosso bem-estar e na nossa saúde;

- Relacionamentos de qualidade, e nesse ponto é importante pensarmos de fato em qualidade, não em quantidade, ter uma rede de apoio e pessoas com quem podemos contar é um dos principais indicadores de qualidade de vida;

- Autoconhecimento, quando nos conhecemos, sabemos o que nos faz bem e mal, fica mais fácil tomar decisões assertivas e ter uma vida de qualidade;

- Incluir na nossa rotina atividades que nos dão prazer, passar tempo com as pessoas que gostamos, ler, ter momentos de lazer e autocuidado.

Como identificar

Um dos pontos importantes, citados no início da matéria, é saber identificar a hora de pedir ajuda, para que a situação não seja agravada pela falta de suporte. “Saúde mental não é apenas ausência de doença, mas uma condição que nos permite lidar com as dificuldades do dia a dia, ter relacionamentos de qualidade, sermos funcionais e possuir bem-estar e qualidade de vida. Apesar de existir ou não um diagnóstico, precisamos olhar para essas questões e dar a devida importância”, explica o profissional da saúde.

Entre os sinais que servem de alerta e necessitam de cuidado, estão comportamentos considerados “normais”, no dia a dia das pessoas. “Mudanças de humor, alterações no apetite, alterações no sono, conflitos frequentes em relacionamentos pessoais e profissionais, sentimento de vazio ou angústia sem motivos aparentes, irritabilidade, diminuição de energia e cansaço excessivo, perda de prazer em atividades que antes eram agradáveis, diminuição do autocuidado e higiene, dores e desconfortos sem causa física aparente, estresse frequente e elevado”, enfatiza Muriel.

Qual o melhor momento para buscar ajuda profissional?

O que muitos questionam é sobre a hora de buscar por um profissional. Qual será o melhor momento para solicitar uma ajuda especializada? O que em boa parte das vezes parece algo superficial, conforme o psicólogo acaba se tornando uma medida preventiva e eficaz. “A psicoterapia é uma grande aliada nisso, é um espaço ideal para que as pessoas se conheçam e busquem alterar algum ponto da vida que não está satisfatório ou algum funcionamento que está trazendo sofrimento. A ajuda profissional também fornece um grande auxílio em momentos de mudanças importantes, em alterações na fase de vida, possibilitando que esses processos sejam realizados com um menor nível de sofrimento”, esclarece.

Terapia Cognitivo Comportamental

Sobre a Terapia Cognitivo Comportamental (TCC), uma das abordagens dentro da psicologia, Vendruscolo explica. “É a abordagem que utilizo atualmente nos meus atendimentos. Uma psicoterapia com sessões mais estruturadas, com metas definidas e focada na resolução de problemas. Para cada caso é feita uma conceituação e traçado um plano de tratamento com metas e objetivos, definidos entre o paciente e o psicólogo, pois sempre é respeitada a subjetividade de cada pessoa. O entendimento da TCC é de que pensamentos, comportamentos e emoções se influenciam diretamente, e é nesses pontos que ela vai focar”, elucida.

Ele acrescenta, finalizando. “É um tratamento bastante eficaz para depressão, transtorno de pânico, transtorno de ansiedade e fobia social. Também tem eficácia comprovada em casos de anorexia nervosa, transtorno dismórfico corporal, Transtorno de Estresse Pós-Traumático e Transtorno Obsessivo-Compulsivo. Além de ter bons resultados como tratamento adicional para esquizofrenia e doenças de condição médica geral, oportunizando melhor qualidade de vida”, conclui.

Relatos de uma jovem com crises de ansiedade e pânico

Conversamos também, com uma paciente com transtornos de saúde mental, que relatou um pouco da sua experiência. A jovem de 22 anos conta que desde os 12 enfrenta problemas com autolesão, causadas por crises nervosas. “Esses episódios pioraram com o passar do tempo. Não entendia o que era, por isso só busquei ajuda muito tempo depois”.

S.D conta que os sinais de depressão e ansiedade, surgem de forma inesperada, causando muitos prejuízos. “As crises são únicas para cada um, mas pessoalmente, uma crise depressiva, por exemplo, pode durar dias. Me sinto tão esgotada que isso paralisa e não tenho vontade de fazer nada. Também não sinto mais paixão pelo que amava fazer e dependendo da intensidade, os pensamentos suicidas que tanto batalhei para deixarem de ser diários, podem reaparecer. Com a ansiedade as crises são mais curtas, com muitos sintomas físicos como náuseas, vômito, coração acelerado e um desconforto imenso no peito que é difícil descrever, mas funciona como uma mão invisível que exprime algo dentro do peito”, expõe.

Sobre o auxílio profissional e medicamentoso durante o processo, a jovem tem clareza sobre a importância de manter uma rotina de tratamento. “Medicamentos podem ser muito importantes no tratamento mas é necessário um profissional que sempre auxilie e também familiares que possam apoiar, principalmente em pacientes com risco de suicídio que podem acabar abusando dos remédios. Fui esse paciente e por um tempo, os medicamentos não ficavam comigo, mas com algum familiar, quando meu quadro se estabilizou minha psiquiatra permitiu que eu cuidasse dos meus medicamentos. Remédios não descartam a importância que é frequentar uma terapia, poder se abrir e dedicar um tempo para o seu autoconhecimento”, diz.

A erechinense revela que, nos momentos difíceis, busca encontrar as respostas dentro de si. “Cada pessoa é um universo único com paixões diferentes. O importante é saber que a resposta não está nas outras pessoas mas dentro de si. O apoio de quem amamos é uma chave muito importante, mas saber que você vai sempre viver com você mesmo, prova a relevância de ser mais gentil consigo. Encontrei muito apoio nos livros, na escrita e na arte, descobri que da intensa tristeza paralisante, pode brotar coisas lindas. Não é a "incrível cura", ainda luto todos os dias contra a auto sabotagem que vem com a depressão e a ansiedade, mas de fato, são fatores que me ajudaram. Gosto muito de passar algum tempo criando histórias e as escrevendo, quando sinto algo forte gosto de transformar em um poema, a inspiração vem do nada em momentos aleatórios, mas é assim que funciona para mim”, descreve.

Com tantas experiências já vividas, a jovem aconselha pessoas que possam estar passando pelas mesmas situações. “O momento pode parecer incapacitante, onde tudo parece errado ou que não está chegando a lugar nenhum, mas a cada segundo que passa, você está evoluindo, mesmo sem perceber e, consequentemente, chegando a algum lugar. Essa dor pode distorcer a realidade aos seus olhos, assim como distorcer sua própria imagem, mas saiba que nenhuma parte sua precisa se moldar à vontade de outra pessoa, você já é um universo, e cada mínimo sentimento é válido sim. Pode parecer bobo, mas tem uma frase do Ursinho Pooh que diz "você é mais corajoso do que você acredita, é mais forte do que você vê, e mais inteligente do que você pensa". Essa frase me marcou muito, mesmo quando eu duvidava, mas agora sei que ela é verdadeira”, finalizou.

 

Leia também

Publicidade

Blog dos Colunistas

;